Ano Novo, de novo

Nana, a dona do território e devoradora da comida alheia

Então, tá. 

Acabou 2020, mas não acabou, porque não foi um ano, foi um vórtex que engoliu todo mundo e suspendeu o funcionamento normal do espaço-tempo. É um ano que não passará. Já pode tomar posse, cumprimente- o, 1968. Aqui está sua aposentadoria, não iremos mais entrar em contato para pedir sua autorização para mencioná-lo nos livros de história. Tenha um ótimo descanso. 

Voltando, qualquer oportunidade -qualquer oportunidade- virou divã. Qualquer assunto puxado com alguém, entorna nos problemas de cada um. Qualquer reunião online tem seu momento de desabafo. Qualquer aula remota tem espaço para suas considerações pessoais. Desde o golpe, quem ainda não sabia fazer isso, desenvolveu. Em 2020, foi só o que fizemos. 

Eu estou escrevendo este texto como forma de atualizar as notícias sobre mim. E também para colocar na internet as coisas de uma forma que, oralmente, eu não consigo mais, de tanto que repeti. Fazer deste lugar o meu divã extraoficial. Eu digo noticiar porque é isso que, em certa medida, fazemos em nossas redes sociais. Desde que larguei delas – disclaimer: elas ainda estão lá, eu continuo entrando, mas não mais para interagir, somente para manter doses homeopáticas decrescentes de modo que eu não tenha uma síndrome de abstinência –, fiquei, inclusive, sem receber notícias de pessoas que mal conheço, ou sequer conheço, pessoalmente, mas que fizeram e fazem parte da parte que vale a pena na minha bolha digital: Máira Nunes, a Microcelebridade; Karine Alexandrino, a Mulher Tombada e Luciana Nepomuceno, a Borboleta nos Olhos. 

Todas têm algo em comum: (não, não é a persona literária virtual) deveriam ser publicadas. São mulheres que eu sinto falta da “presença” nas minhas timelines e que, também, mais importante, me ensinaram que escrever é possível, é necessário e uma ótima alternativa. 

Foi com isso que me comprometi depois que parei com as redes socias, mas não é nem um pouco fácil. Escrever, para mim, dói. E eu ainda não aprendi a manipular essa dor enquanto escrevo. 

Há alguns dias, tive minha primeira crise de ansiedade do ano. Briguei com meu conge por causa da crise e, no meio da crise, ele teve que me acalmar – literalmente parar a discussão e respirar comigo. Quando o em cima voltou para cima e o embaixo voltou para baixo, agarrei uma lapiseira e rasguei com palavras uma folha de papel. Depois, peguei uma caneta e risquei a mim mesmo – tinta que durou alguns dias no corpo. 

O que eu quero dizer é que estamos todos tão sequelados… que a alternativa é se reinventar. Positividade tóxica, back off. É a nossa saída contra a pulsão de morte que tenta tomar conta de nós em momentos como esse. Fomos obrigadas a descobrir reservas de energia em outras coisas, impensáveis coisas, que estavam, até 2020, fora de nossas possibilidades. É como se fôssemos movidos a vapor e tivéssemos que passar a nos mover com energia eólica. 

Comecei a aprender linguagem de programação. Não me pergunte, é outro planeta para mim também. O que interessa é que até mesmo os estágios nessa área são ótimos, o mercado transborda vagas e eu acho muito chique dizer: eu sou Dev – (do inglês developer – desenvolvedor de sistemas e softwares). Já até criei meu perfil no GitHub (seja lá pra quê ele sirva). 

Enquanto isso, eu continuo no meu emprego atual, ao qual vou e volto de bike todos os dias, recebendo meu salário de auxiliar de escritório para fazer o trabalho de um designer, um redator, um museólogo e um design de interiores; o país começa a vacinar a população e já interrompe por fraude; minha gata mais velha se recupera de uma gastrite, enquanto continua comendo a comida da outra, de modo a matá-la de fome por ocupar seu território; a temperatura finalmente está abaixo de 28° C e a vizinha aqui do escritório continua fazendo uma comida quase tão cheirosa quanto a da minha mãe – hoje, pelo visto, é carne com batatas.

Feriado

Entrei no mundo da poesia. Sim, agora, com 25 anos. Nossa educação literária péssima-inexistente. Poesia sempre foi difícil pra mim – de ler (no sentido de decodificar mesmo), de entender, de me identificar. Eu sou muito prosa. “Toda prosa“. Que vergonha. Eu me formei em Letras para começar a ler poesia na pós- graduação. Taí: minha dissertação vai ser sobre começar a ler poesia aos 25 anos.

Decidido a parar de usar redes sociais, estou experimentando estratégias para minimizar cada vez mais as horas que passo nesse mundico. Inclusive, esse fim de semana assisti a um vídeo com uma excelente reflexão sobre o documentário O dilema das redes (Social Dilemma), em que o Mauro Iasi observa diversos pontos (importantíssimos) que faltam na reflexão proposta pelo documentário, e também (esse aspecto mais importante, a meu ver) sobre as péssimas alternativas apresentadas pelos entrevistados. Como ser anticapitalista frente às grandes corporações de mídia digital? É uma pergunta que está me perturbando.

Mudando de assunto, pero no mucho: um marco histórico para este ano e para a minha vida: li um livro inteiro de poesia. Inteiro. Todinho. Me arrepiei. Ri pacas. A poesia entrou na minha vida e eu estou muito feliz.

Muito feliz também pois, não bastasse esse acontecimento, fiquei de sexta a noite até terça-feira de manhã sem.mexer.no.celular – zero horas. Li (não só poesia), estudei, cozinhei, passeei com a gata, joguei videogame – em alguns momentos esqueci que tinha celular. Estou duplamente feliz.

Longe de ser um: -olha só, larguei o celular por um fim de semana e li um livro inteiro de poesia, largue já seu celular também, pois coisas maravilhosas acontecerão na sua vida – eu estou feliz mesmo porque percebi que essas duas coisas aconteceram e, de tão natural, eu quase que não percebi mesmo.

Tuca dentro da sacola

Um Adeus e um Outro Início

Desde que a polarização política atingiu o Brasil, tenho estado cada vez mais fora das redes sociais. Lá por 2017, parei de usar meu F***b**k e migrei para o I****g**m, ainda não comprado por aquele. Passou a ser minha rede principal e viciei. Mesmo não alimentando o feed, meus stories estão sempre cheios.

Muito me incomodou, desde que comecei a abandonar o F***b***, a carga depressiva que minhas amigas e amigos foram demonstrando. Um infortúnio geral, relatos de crises de ansiedade, descrença no cenário político, relato de início de terapia com medicamentos para todo tipo de transtorno e, principalmente, ansiedade, falta de engajamento político e muita, mas muita militância de sofá. E eu fui ficando assim também.

Outra coisa que gosto de fazer na internet que não seja acompanhar as redes sociais é ouvir podcasts. Meus xodós são o Anticast e o Xadrez Verbal. Eu eu estava vivendo minha vida “normalmente” até ouvir esse programa e esse outro aqui. A partir disso, comecei a me incomodar e prestar atenção no uso que fazia das redes sociais.

Mas isso foi antes de deixar de lado o F***b*** e migrar para o I***g***. Vida que segue, vida que seguiu. Mas aí me dei conta de que este também pertencia àquele e não fazia muita diferença estar em um e não no outro. Até que, recentemente, lançaram o documentário O Dilema das Redes (The Social Dilemma, 2020, dirigido por Jeff Orlowski) que explica tim-tim por tim-tim como somos afetados, psicológica e socialmente, pelo uso indiscriminado das redes sociais. Recomendo muito que assistam. No mesmo dia, decidi largar de vez esse vício (sim, é um vício. Não é uma palavra forte) e buscar outras alternativas de me comunicar com as pessoas, me divertir, acompanhar as artistas/os artistas de que gosto e tudo mais.

Foi por isso que decidi criar esse blog, para uso mais ou menos análogo ao que eu fazia das redes, mas com um pouco mais de privacidade, digamos assim. Esta não é primeira tentativa que faço de ter um blog e espero que agora, desta vez, seja a última.

Continuemos.